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Quem foi Dolores Huerta, a organizadora que mudou a vida dos trabalhadores rurais nos EUA

Morta aos 96 anos, a cofundadora do sindicato United Farm Workers liderou greves históricas, foi presa 22 vezes e, já no fim da vida, revelou ter sido estuprada por Cesar Chavez, seu parceiro de luta.

Por Redação Nova · 28 de outubro de 2026 às 21:30

Dolores Huerta. Foto: Gage Skidmore / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

Dolores Huerta, um dos nomes mais importantes da defesa dos trabalhadores do campo nos Estados Unidos, morreu nesta quarta-feira (28), aos 96 anos. Ela estava em casa, em Bakersfield, na Califórnia, e, segundo a família, a causa da morte foi um câncer.

Huerta ajudou a fundar o sindicato United Farm Workers e passou a vida defendendo trabalhadores rurais, imigrantes e mulheres. Entre os mexicanos-americanos, virou uma espécie de heroína popular.

Origem

Nascida Dolores Clara Fernández em 10 de abril de 1930, em Dawson, no Novo México, ela era a filha do meio de três irmãos. O pai, mineiro de carvão, chegou a líder sindical e deputado estadual. Com a separação dos pais, foi criada pela mãe e pelo avô em Stockton, na Califórnia.

A mãe trabalhou como garçonete, em fábrica de conservas e como cozinheira, até comprar um hotel onde, às vezes, recebia trabalhadores migrantes sem cobrar. Huerta contava que em casa não havia diferença entre meninos e meninas: todos dividiam as tarefas igualmente.

Formada professora, deu aulas no ensino fundamental, mas largou a carreira. Ela dizia não aguentar ver alunos chegando à escola com fome e sem sapatos.

A luta no campo

Em 1962, ao lado de Cesar Chavez, fundou a National Farm Workers Association, que pretendia proteger trabalhadores migrantes de jornadas exaustivas, salários baixos e da falta de estabilidade. "As pessoas achavam que éramos loucos", relembrou anos depois. Três anos mais tarde, o grupo já reunia 1.200 membros e se uniu a trabalhadores filipinos numa greve contra produtores de uva de mesa da Califórnia.

O movimento ganhou apoio de outros sindicatos e do senador Robert F. Kennedy, que esteve em um ato em Delano em março de 1968. Huerta estava presente, meses depois, quando Kennedy foi assassinado.

Inspirados em Martin Luther King Jr., ela e Chavez apostaram em greves, boicotes e desobediência civil sem violência. Huerta foi presa 22 vezes, agredida por fura-greves contratados e, certa vez, espancada por um policial.

Enquanto Chavez era o rosto carismático do movimento, ela era a organizadora: coordenava as paralisações e negociava contratos inéditos com grandes empresas agrícolas. Foi vice-presidente do sindicato por quase 40 anos.

Reconhecimento

Aliada de políticos democratas progressistas, ela viu leis que defendia serem sancionadas pelo governador californiano Jerry Brown. Em 2012, recebeu de Barack Obama a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior honraria civil do país.

A revelação sobre Chavez

Por décadas, Huerta guardou um segredo. Só no início de 2026, em entrevista ao The New York Times, contou ter sido estuprada por Chavez. A reportagem do jornal reunia ainda extensas evidências de que ele assediou e abusou sexualmente de meninas menores de idade, algumas com apenas 12 anos.

Ela explicou que via Chavez como chefe e herói e que se calou para não prejudicar o movimento: "Nunca contei a ninguém".

Família

Huerta foi casada duas vezes e depois viveu muitos anos com Richard Chavez, irmão de Cesar. Mãe de mais de dez filhos, chegava a trocar fraldas entre reuniões e amamentar durante pausas nas negociações. Os filhos cresceram muitas vezes em casas de amigos e apoiadores. Ela deixa filhos, 24 netos, 23 bisnetos e sete tataranetos.

Com informações do Folha de S.Paulo.